Travessia Petrópolis-Teresópolis


A Pedal Center não se responsabiliza por alterações na trilha ocorridas depois da publicação deste roteiro. A exatidão dos pontos de referência era a melhor possível por ocasião da publicação, mas não implica em responsabilidade de nossa parte quanto`a exatidão. Informe-se ANTES de entrar na trilha.

Utilize este roteiro como fonte de inspiração mas não como única fonte de informação.

Uma caminhada atravessando um dos mais bonitos parques nacionais brasileiros. Montanhas escarpadas, visuais a perder de vista, campos de altitude, frio, algumas cachoeiras e uma porção de Mata Atlântica. Uma caminhada pesada, íngreme e com alguns movimentos de escalada, além da exposição em algumas partes. Costões de pedra e a possibilidade de encontrar muita neblina pelo caminho. Se perder? É quase uma constante, mas nem por isso o caminho deixa de valer a pena. São 36 quilômetros da mais pura e tradicional trilha – talvez a mais tradicional do Brasil.

Vencer esta caminhada que separa as cidades serranas de Petrópolis e Teresópolis, no Estado do Rio de Janeiro, não é fácil nem para o mais experiente dos caminhantes. Atravessa-se cerca de oito vales, com subidas e descidas acentuadas, que exigem um bom preparo. Como se não bastasse, a mochila deverá estar pesada – em média, 14 kg – e o desnível a se vencer é grande. Mas nada é impossível e basta apenas um pouco de vontade e determinação.

Agora, é só colocar a mochila nas costas e partir (veja seção Dicas sobre Como montar e ajustar uma mochila?). Você escolhe de onde quer começar: Teresópolis ou Petrópolis?

Petrópolis – saída mais tradicional, que começa no Vale do Bonfim, em uma região chamada Correias. Após passar a entrada do Parque Nacional da Serra dos Órgãos e se registrar, siga o rio pela trilha à direita – se você chegar na cachoeira Véu de Noiva, volte, pois errou a trilha. Suba até o Queijo e siga pela trilha aberta que contorna o morro à sua frente, deixando um profundo vale à direita. Você logo chegará a uma bica d'água conhecida como Ajax – trate-a, pois há muito esta água está poluída (aliás, como toda a água da travessia). A subida, daqui para a frente, é ainda mais íngreme e muito acentuada, terminando na crista com alguns costões de pedra, que leva aos Castelos do Açú. Lugar para o primeiro acampamento. O tempo até aqui vai variar do ritmo de cada um mas, em média, com mochila pesada, você deve levar umas seis horas.

Segundo dia – comece muito cedo e fique atento, daqui para a frente, à toda e qualquer sinalização presente na trilha. Se o tempo estiver bom, guie-se, também, pelo visual (não deixe de olhar o caminho lá na sua frente, onde você deverá estar passando em pouco tempo). Use a sensibilidade, já que a quantidade de marcos presente neste trecho faz com que muitos se percam – nem todos sinalizam o caminho correto! Siga o mapa e os vales e morros que deverá passar: Morro do Marco, Vale do Paraíso, Morro do Dragão, um pequeno rio, um pulo em um grotão, a subida em um capim de anta horrível (nestes lugares, recentemente colocaram duas pontes, uma com corrimão e outra de madeira, e degraus), sempre molhado, muito cortante e íngreme, alguns costões de pedra para atravessar e a descida de um costão enorme e muito acentuado, caindo para a esquerda para chegar ao Vale das Antas, local do segundo acampamento. O visual deste dia é o mais bonito de toda a travessia, com a Serra dos Órgãos e seus paredões gigantescos se descortinando à sua frente. Procure identificar cada cume, da esquerda para a direita: Pedra do Sino, 2.262 m., montanha mais alta da serra; Garrafão; São Pedro; São João; Santo Antônio; Cabeça de Peixe; Dedo de Deus; Dedo de Nossa Senhora e Escalavrado. Em primeiro plano, Três Marias. Tempo até aqui, em média: seis a oito horas.

Terceiro e último dia – Apesar de relativamente fácil, ainda tem uns bons quilômetros para vencer. Comece, de novo, cedo. Suba o morro da direita, se você está de costas para o costão de onde desceu ontem, atravessando o rio do acampamento (tem uma ponte) e, logo em seguida, atravessando outro rio. Logo você chegará a uma pedra conhecida como Baleia, já que parece o dorso deste mamífero. Siga a trilha e, em breve, estará no cume de uma montanha, com o Sino escancarado à sua frente. Desça esta montanha, em direção ao Sino mas contornando-a levemente pela direita. Um ponto delicado: para chegar ao Sino, você terá de passar por um grotão que, apesar de bonito, exige alguns movimentos de escalada. Pode-se fazer sem a mochila cargueira, no entanto, o que facilitará – e muito – a sua vida. Do outro lado do grotão, o final da parte mais técnica da caminhada: a subida do Sino. Se o tempo estiver bom, aproveite a exposição deste lugar, que nada mais é que uma estreita passagem encontrada na montanha permitindo uma caminhada das mais prazerosas, com muito uso dos braços e mãos. Um ou dois lances de escalaminhada e acabou. O resto é apenas trilha – e descendo! Não esqueça de largar as mochilas no ponto onde a trilha da subida do Sino encontra a outra trilha e dar uma corrida até o cume, já que a travessia não passa por lá. Se não quiser, desça direto em direção ao reconstruído Abrigo 4, seguindo pelo interminável zigue-zague desta bonita trilha no meio da mata. O final é em um local conhecido como Barragem. Se conseguir alguém que vá buscá-lo, tanto melhor, já que a descida deste ponto é chata e cansativa, feita pela estrada de paralelepípedos, até a entrada do parque. Lá, já na estrada, dobrando à direita e caminhando mais uma dezena de metros, você chegará ao ponto de ônibus e poderá pegar um que desça para o Rio de Janeiro – todos param na estrada. A cidade de Teresópolis, no entanto, fica para a esquerda. Tempo do último dia: cerca de sete horas.

Prós e contras – a subida do Açú é extremamente exigente e cansativa, além de estar já muito erodida e desgastada. Sobe-se mais nesta direção (o desnível é maior). E alguns pontos delicados são feitos em situação desfavorável, como a descida do costão que leva ao Vale das Antas. Por outro lado, é a vista mais bonita da travessia, já que a serra ficará à sua frente e não às suas costas...

Teresópolis – comece da entrada (Sede) do parque, quase na entrada da cidade. Suba a trilha do Sino e fique atento ao desvio à direita em uma das curvas para a esquerda, já quase chegando ao cume (uns 10 ou 15 minutos antes dele) – siga o paredão, já que você descerá rente a ele, que ficará à sua esquerda. Desça o Sino, passe pelo grotão e suba a parede à sua frente, caindo um pouco para a direita – marcos e trilhas sinalizarão o caminho. Desça em direção à pedra da Baleia e entre na pequena mata existente logo depois dela. Você irá começar a cair para a direita, passando um rio e outro morrote antes de atravessar um rio maior (com uma ponte), que te deixará dentro do acampamento no Vale das Antas. Tempo até aqui: cerca de sete a oito horas.

Segundo dia – suba o paredão à sua frente, se você deixou a trilha por onde chegou ontem à sua esquerda, caindo um pouco para a direita dele (à esquerda fica um enorme abismo!) e chegando em seu cume. Daqui em diante, siga os marcos – você terá uma pequena descida e outro costão de pedra em frente para subir, este também íngreme. A descida seguinte é a de capim de anta, enlameada, escorregadia, muito acentuada e ruim, terminando em um buraco que deverá ser transposto com um salto (recentemente, acrescentaram por aqui degraus e duas pontes, uma de madeira e outra com corrimão). Siga a trilha e logo atravessará um riacho, subindo pelo outro lado dele e seguindo os marcos. Fique muito atento, já que a quantidade de marcos neste trecho nem sempre indicam a direção correta... Você deverá andar em direção à montanha seguinte, um pouco à sua esquerda, mais em direção ao cume mas sem chegar nele. Este é o Morro do Dragão e você vai descê-lo pelo outro lado – tem trilha. Procure-a, pois assim saberá que entrou na mata no local correto. A mata te levará a um rio e a um local de acampamento conhecido como Paraíso, um pouco depois de passar o rio. Se você tem tempo de sobra, pode tentar chegar ao Açú. Se não quiser confusão e barulho durante a noite, acampe aqui mesmo. Tempo até aqui: cerca de seis horas.

Terceiro dia – se você optou por ficar no Paraíso (o que, aliás, foi uma ótima opção), você deve sair cedo, pois terá ainda algum caminho a percorrer. Suba para o Morro do Marco, desça-o e suba a encosta seguinte, que te levará direto para o Açú. Daqui em diante, é praticamente só descida, mas longa e cansativa, além de bastante acentuada, o que poderá sacrificar um pouco os seus joelhos (um bastão de caminhada cai bem aqui). A pedra do Queijo é o sinal de que você já está entrando no vale do Bonfim. Antes do final da caminhada, não deixe de tomar um banho no rio que está à sua direita. Mas não esqueça de não usar nenhum tipo de sabonete ou shampoo! Tempo até aqui: cerca de cinco a seis horas.

GPS (os graus estão em UTM):
• Portaria do Parque (Petrópolis) – 23 K 0696819 / 7514508
• Bifurcação Açú – Véu de Noiva – 0697976 / 7513904
• Pedra do Queijo – 0697747 / 7513586
• Ajax (água) – 0697727 / 7512508
• Crista – 0698219 / 7512122
• Castelos do Açú – 0699359 / 7512188 – alt. 2.165 m.
• Morro do Marco – 0700049 / 7512609 – alt. 2.160 m.
• Água – 0700197 / 7512931
• Vale do Paraíso – 0700200 / 7513028
• Dinossauro – 0700241 / 7513537 – alt. 2.225 m.
• Ponte Construída – 0700939 / 7513759
• Crista – 0700897 / 7514103 – alt. 2.107 m.
• Vale das Antas – 0701406 / 7514436
• Pedra da Baleia – 0701890 / 7514459 – alt. 2.065 m.
• Vale da Morte – 0702497 / 7514801
• Pedra do Sino/Abrigo 4 – 0702918 / 7514922 - alt. 2.131 m.
• Cota 2000 – 0703711 / 7515308
• Abrigo 3 – 0703832 / 7515779
• Cachoeira – 0704280 / 7515753
• Barragem – 0705734 / 7515817 – alt. 1.191 m.

Obs.: o GPS pode dar um erro de alguns metros. Esta variação depende do aparelho, entre outras coisas. Use o bom senso e esteja sempre de olho no mapa, aferindo e se certificando dos lugares por onde está passando.

Mapa: folha 1/50.000 de Itaipava.

Grau de dificuldade: pesada
Obs.: O grau de dificuldade é definido por uma escala simples com apenas três “tipos” de caminhada: leve, semi-pesada e pesada. Este grau, como qualquer graduação, é subjetivo mas leva em consideração o percurso, o ganho de altitude em um dia, a distância percorrida etc. Lembre-se que uma caminhada pode ser pesada mesmo sendo feita em apenas um dia... Bem como pode ser leve, mesmo sendo feita em vários dias curtos e planos...

Requisitos Necessários para se fazer esta trilha:
• Alguma experiência prévia – se você já fez várias caminhadas de um dia, com mochilas de ataque e tendo enfrentado vários tipos de tempo e terreno, já deve estar preparado para enfrentar uma caminhada mais longa e que exija o uso de uma mochila cargueira.
• Conhecimento do local – claro que você não conhece todos os lugares que pretende trilhar. Por isto, estar acompanhado de um guia experiente é fundamental . Tenha certeza de que o grupo possui um mapa e uma bússola e todos sabem usá-lo. E, lembre-se: GPS sem mapa não funciona! (Sem pilhas também não...)
• Um bom equipamento – certifique-se que você possui um anorak impermeável, uma boa barraca, saco de dormir para temperaturas baixas e um isolante, uma boa bota já amaciada, lanterna e pilhas extras, fogareiro etc.
• Preparo físico e psicológico – mais do que estar preparado fisicamente, tenha certeza de que está preparado psicologicamente para as durezas da vida ao ar livre. Ficar dois ou três dias sem tomar banho pode ser desconfortável para a maioria das mulheres, por exemplo. Carregar uma mochila mal ajustada e pesada além do necessário também pode ser desconfortável para a maioria das pessoas. Mas, se você está preparado psicologicamente, não descuide do físico – ele fará toda a diferença no final de um longo dia!

Material indispensável:
• Mapa e bússola.
• Barraca para duas ou três pessoas – dividir o peso entre os usuários é o ideal, não sobrecarregando ninguém.
• Isolante térmico e saco de dormir
• Mochila cargueira de, no mínimo, 55 litros.
• Fogareiro e panelas, com combustível suficiente para todas as refeições – também dividir entre os usuários da mesma barraca, bem como as comidas.
• Lanterna com pilhas extras
• Anorak
• Comida para todos os dias + um – levar demais é peso extra. Levar de menos é fome na certa. Seja equilibrado. Não deixe faltar nem sobrar e procure levar coisas leves e energéticas como castanhas e nozes, frutas secas, macarrão e sopas etc.
• Roupas extras quentes e secas embaladas individualmente em sacos plásticos, para conservá-las longe da umidade. Lembre-se que, mesmo estando no Brasil, o frio pode matar (hipotermia). A temperatura no inverno pode chegar facilmente a alguns graus abaixo de zero (você estará acima dos dois mil metros de altitude a maior parte do tempo).
• Uma boa bota de caminhada, de preferência com o cano alto, para protegê-lo de torções (muito freqüentes quando estamos cansados).
• Boas meias – use uma fina por baixo e outra mais grossa por cima, protegendo seu pé de indesejáveis bolhas (enquanto uma meia roça na outra, o seu pé fica longe dos atritos que causam as bolhas). Não esqueça de tirá-la no final do dia para secar para o dia seguinte. Procure aplicar um talco e/ou álcool em gel para limpar os pés após o longo dia de caminhada, assim que chegar em cada acampamento, livrando-se de fungos e bactérias.
• Bastão de caminhada – este não é um item indispensável, mas ajudará muito especialmente no começo e no fim da travessia, onde as subidas são muito íngremes, as decidas são exigentes e a vegetação aberta permite o uso dos bastões. Seus joelhos agradecerão!
• Procure usar roupas de tecidos sintéticos como capilene, dry fit, tactel, suplex e similares. Eles secam rápido, afastam o suor do contato com o corpo (o que permite fazê-lo sentir-se sempre “seco”) e são muito leves, ideais para qualquer clima. Uma dica: quer secá-lo durante a noite? Guarde-o dentro do saco de dormir. O calor do seu corpo se encarregará do resto (o mesmo vale para as meias de material sintético). Mas não tente fazer isto com roupas de algodão! Além de não secar, ainda deixarão uma desconfortável sensação de umidade durante toda a noite...
• Um bom estojo de primeiros socorros – leve apenas aquilo que sabe usar e não esqueça que, mais importante que socorrer, é não piorar o estado da vítima.
• Telefone celular – mantenha-o desligado para não gastar a bateria e, em caso de emergência, tenha em mãos telefones úteis, principalmente o do Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Avise ao menos uma pessoa da família ou amigos para onde você está indo, que trilha pretende fazer e quando pretende voltar. Em caso de resgates, estas informações serão valiosas...

Lembre-se:
• Esteja acompanhado de guias experientes e pessoas conscientes . Só o tempo e a exaustiva repetição dos procedimentos de segurança te farão um experiente montanhista. Não existem cursos que ensinam o que a vivência e o tempo fará...
• Tenha mapas da região e bússola mas tenha certeza de que sabe usá-los corretamente!
• Prepare a mochila corretamente – leve o suficiente para não te fazer sofrer muito, cheia o suficiente para te garantir autonomia em caso de tempo ruim e com comida e combustível para pelo menos um dia a mais que o programado.
• “Não deixe rastros” – procure não deixar indícios da sua passagem pelas montanhas e, se possível, leve isto às últimas conseqüências... Assim, tudo o que você levou, traga de volta!
• Não deixe de trazer inclusive as cascas de frutas e papel higiênico usado, pois eles também poluem, inclusive visualmente – mesmo sendo biodegradável. Além do mais, no caso das frutas, você poderá estar introduzindo espécies que não pertencem ao ecossistema por onde você está passando.
• Trate a água que for beber.
• Não ande fora das trilhas e evite ao máximo os atalhos. Eles provocam erosão...
• Enterre as fezes a pelo menos 15 cm do chão e a mais de 40 metros de um curso d'água.
• Não faça muito barulho e respeite a lei do silêncio nos acampamentos.
• Se alguém não tem experiência no grupo, seja responsável também pela formação desta pessoa, ensinando-a regras de ética e boa conduta no mato.
• Saiba como proceder em caso de tempestades elétricas – muito comuns principalmente no verão e, claro, extremamente perigosas.
• A aventura não está em sair de casa desprevenido, mas em voltar com segurança!
• Ajude a preservar o que é de todos, para que dure muitos anos mais...
APedal Centernão se responsabiliza por alterações na trilha ocorridas depois da publicação deste roteiro. A exatidão dos pontos de referência era a melhor possível por ocasião da publicação, mas não implica em responsabilidade de nossa parte quanto`a exatidão. Informe-se ANTES de entrar na trilha.
• Utilize este roteiro como fonte de inspiração mas não como única fonte de informação.

• Boas Trilhas...

Leitura Sugerida:
• Caminhos da Aventura – Sergio Beck
• Livro de Aventura do Excursionista Decidido – Sergio Beck
• Livro de Orientação do Excursionista Perdido – Sergio Beck